Assinalo o ano de 1992 como o início de minha carreira. Não que ela tivesse começado naquele ano. Até o primeiro disco, muitos shows rolaram e todos no formato voz e violão. Mas foi no referido ano que o primeiro disco, Fora da Grei, ainda em vinil, foi lançado. Essa é a minha primeira aventura devidamente registrada, independente e gravada num estúdio de nome “Clave de Fá”. Nesse disco se destacam o pianista Raimundo Nicioli e o produtor João Ataíde. E Alexandre Guichard no violão. O produtor executivo foi Marcos Petrilo, um cara importante na minha carreira pelos incentivos constantes. E a grande surpresa foi que, malgrado as péssimas condições de produção (nessa época, disco independente era um ET), o vinil foi bem recebido pela imprensa. O Jornal do Brasil, muito lido na época, chegou a incluir o disco como um dos destaques do mês.
Passaram-se seis anos até lançar meu segundo disco, dessa vez no formato cd. Estamos no ano de 1999, e coube a Robertinho de Recife a produção do SKYLAB. Viria a ser o primeiro disco de uma longa série a ser concluída só agora com o SKYLAB X. As onze faixas escolhidas pelo mago da guitarra, acabariam se tornando uma espécie de identidade a que me fui obrigado seguir. Lembro-me do processo de escolha: eu cantava, ele ouvia, e dizia como juiz máximo – essa sim, essa não. Quantas não foram preteridas.
Nessa época eu tinha um sonho: assinar o contrato com uma grande gravadora. Acreditava piamente nos poderes de Robertinho, a quem me subjuguei de bom grado. Era quem indicava às grandes gravadoras um novo nome. Eu só não entendia como a sua filha não fazia sucesso. O fato é que o tempo passou e eu também não fiz. Gosto do disco, ainda que tenha sido gravado em estúdio de uma maneira diferente a que se impôs com o tempo: não foi gravado pela minha banda e sim por outro mago, esse, dos teclados: Luiz Antônio Gomes.
Um ano após, o segundo disco da série, o SKYLAB II, foi a minha libertação. A partir de então eu viria a assumir a produção dos discos. Foi o meu primeiro Ao Vivo, gravado no Hipódromo Up, no coração do Baixo Gávea. Esse disco tem a guitarra de Alexandre BG, um cara super cultuado nos cenários alternativos cariocas. Alexandre Guichard permanecia na viola, Marcelo B na batera e Wlad no baixo. Há quem o eleja o disco mais significativo da série e não serão poucos os que hão de concordar. Na verdade, ele retoma o conceito do primeiro, só que ao vivo.
Com o SKYLAB III, gravado em 2001, no estúdio DRS, por Cícero Pestana do Dr. Silvana, uma nova janela foi aberta. A mixagem de Duda Suliano e a masterização de Luís Tornaghi no Estúdio Vison, deram as características do disco. A batera de Sergio Nacife e a guitarra de Toni Boca complementam um disco que procurou sair da camisa de força imprimida pelos Skylabs anteriores. O destaque fica para a mixagem da música “Cântico dos Cânticos”, onde você poderá encontrar Leonel Brizola, Caetano Veloso, o Bandido da Luz Vermelha e Arrigo Barnabé, tudo junto misturado.
Com o SKYLAB IV, um dos meus preferidos, gravado no estúdio Rock House em 2003, eu tive a revelação do formato que viria a seguir nos discos seguintes: a gravação ao vivo.
Para tanto, é necessário uma banda de primeira. A novidade aqui está no novo guitarrista: Thiago Martins. E também no novo baixista, Rodrigo Saci, e no novo baterista, Bruno Coelho. A liberdade de misturar poesia ( a faixa 4 do disco), escatologia, filosofia, fugindo ao mesmo tempo da categoria de “terror”, como eu vinha sendo classificado, confundiu a recepção do disco, que veio a ser espinafrado por um dos críticos mais influentes do Rio de Janeiro. A música “Mictório”, trazendo um solo de guitarra arrasador, e a música “Eu quero saber quem matou”, que inaugura o paradoxo no meu trabalho, bastariam para sublinhar o disco. É desse disco a música “Chico Xavier e Roberto”, e, “Câncer no cu”. Mas optei deixá-las de fora. Muitos pensam que essas músicas teriam sido censuradas. Eu diria que elas são exemplos de auto-censura.
O SKYLAB V saiu pela Revista Outra Coisa em 2004. E faturou o Premio Claro de Música Independente, na categoria MPB. Uma ironia: é o disco mais rock de todos que produzi. Estréio na Cia dos Técnicos pelas mãos de Vânius Marques. Gostei tanto do estúdio de gravação que passei a adotá-lo para a gravação dos discos seguintes. Vânius é um cara especial e com quem passei a gravar sempre. A curiosidade foi a música FÁTIMA BERNARDES EXPERIÊNCIA que a revista do Lobão deixou de fora. Uma pena. Não deixou de ser um tipo de censura. Cheguei depois a fazer uma tiragem por minha conta e inclui de novo a música.
No SKYLAB VI houve um acidente durante a sua gravação: levei um tombo e me arrebentei todo. Fraturei o osso da mandíbula e precisei fazer uma cirurgia às pressas. Após a cirurgia, com o rosto todo enfaixado, Solange Venturi me fotografou (é ela a responsável pelas fotos das capas dos meus discos ). E chegamos a conclusão que a foto do SKYLAB VI tinha que ser aquela mesma. Nesse disco, anexamos um outro guitarrista: Gabriel Muzak. Apesar de sua presença passageira na série dos Skylabs, é digna de nota. Em relação às faixas, “Isto não é John Cage”, e, “Eu não tenho Eu”, fazem parte das músicas às quais agregamos músicas e discursos de outros autores, como é o caso de John Cage e Clóvis Bornay respectivamente. Mas “Dedo, Língua, Cu e Boceta” é de longe a que mais gosto. Qualquer tentativa de eliminação do discurso foi pra mim sempre bem vinda.
No SKYLAB VII eu inauguro algumas parcerias. Zé Felipe, baixista da banda Zumbi do Mato, compôs comigo as faixas “Dá um beijo na boca dele”, É tudo atonal”, e, “Eu vou dizer”. Marlos Salustiano, antigo tecladista da banda Zumbi do Mato, compôs também em parceria comigo “Samba Isquemia Noise”. E Maurício Pereira, dos “Mulheres Negras”, fez comigo “O Mundo tá sempre Girando”, cuja música cantamos em dueto. Nelas, a harmonia e o arranjo foram deles, e a letra e a melodia minhas. É certamente um dos discos que mais gosto dentro da série, se não disser que é o meu preferido. Entre os músicos, a novidade foi Alex Curi no baixo.
O SKYLAB VIII foi gravado antes do sétimo, daí a presença de Rodrigo Saci no baixo. Pode não ser o meu melhor disco, mas é a minha melhor capa. A única parceria é na primeira faixa, “Tira Tudo”, composta junto com Alexandre Guichard. Desse disco fazem parte “Eu tô sempre dopado”, que viria a ser transformado em clipe, e, “Eu preciso de você comigo”, com a presença de Luiz Antônio Gomes no piano. Gabriel Muzak volta a esse disco em duas faixas: “Tira Tudo” e “Samba bem Quente”.
O SKYLAB IX é o meu primeiro dvd. Gravado no Centro Cultural São Paulo pela produtora Sentimental Filmes, o dvd foi dirigido por Amílcar Oliveira. Contendo trinta músicas e sendo uma retrospectiva dos discos anteriores, o DVD apresentou também algumas músicas inéditas como “Show do Rappa” e “Oficial de Justiça”. Outra música inédita, essa em parceria com o guitarrista Marcelo Birck, que fez parte da banda gaúcha Graforréia Xilarmônica, chama-se “Samba de uma só nota ao contrário”. O dvd traz três convidados: Maurício Pereira, Lois Lancaster (Zumbi do Mato) e Marcelo Birck. Foi também produzido no formato cd, mas com apenas dezesseis canções.
Antes de chegar ao último disco da série, produzi dois projetos paralelos que geraram dois discos virtuais: “Rogério Skylab & Orquestra Zefelipe” e “Skygirls”. O primeiro foi um trabalho em parceria com o baixista Zé Felipe da banda Zumbi do Mato; as canções de minha autoria tiveram arranjos experimentais de Zé Felipe e estão disponíveis na rede para serem baixadas. O segundo disco contou com a presença de Eliza Schinner no baixo e Leandra Lambert na voz e teclados (Bruno Coelho e Thiago Martins permaneceram na batera e guitarra, respectivamente); é um dos discos que eu mais gosto e que muito me orgulho tê-lo feito – a gravação e a mixagem seguiram o mesmo processo dos discos anteriores da série.
Antes de lançar meu último disco da série, Marcelo Fróes, do selo Discobertas, produziu uma copilação e lançou o “The Best of Rogério Skylab”.
Assim, chego ao SKYLAB X.
Com esse “X” que pode ser a letra do alfabeto, mas pode também ser o número dez em algarismos romano, dou por encerrada essa série de discos, iniciada há mais de dez anos.
Aqui, assim como nos anteriores, tem a sátira, o lirismo, o rock, a MPB e a música experimental. A novidade fica por conta de Pedro Dantas no baixo.
Faço parte dos primórdios da música independente no Brasil. E toda minha carreira primou por uma independência que me permitiu fazer do jeito que sempre quis, com absoluta liberdade. Vivi a fase de transição do mercado, quando a indústria fonográfica era pujante e depois passou por uma série crise com o advento da internet. Conheci, portanto, os dois lados da moeda e sou um sobrevivente.
Todavia, me defino como um cadáver dentro da MPB.
Diante da nova configuração do mercado, esse é meu último disco. O curioso é que há mais de dez anos vaticinei esse fim. Meu tema preferido, ao contrário do que muitos afirmam, não é a escatologia, nem a piada, nem o terror. É a morte, simplesmente a morte. E por todos os meus discos, encontram-se referências a ela.
No SKYLAB X não poderia deixar de ser diferente. |